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Núcleo de Cinema de Animação: (1975)

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Wilson Lazaretti e Maurício Squarisi podem ser chamados de "heróis da resistência" e/ou "persistência", há mais de 30 anos vivem de arte, na área de "cinema de animação".

O "Núcleo de Cinema de Animação de Campinas/SP" foi criado informalmente por Wilson Lazaretti em 1975 e oficialmente, em 1980.
Em 1976, aproximadamente, Maurício Squarisi se uniu ao amigo.

"A formação?". Wilson Lazaretti divaga no passado. "Desde criança eu brincava de cinema". Wilson fazia aquelas lanternas mágicas. Adorava cinema. Depois de cursar mecânica geral, no Senai, surgiu a oportunidade de fazer uma exposição no Conservatório Carlos Gomes. Apresentou uma série de "slides" que ele tinha produzido.

A "Lea Zigiatti", com sua visão futurística e seu faro para o sucesso, acreditou nele e o convidou para dar um curso de "cineminha", para ensinar alguns princípios básicos cinematográficos para as crianças.

Wilson começou ensinando teatrinho ótico com a luz, mas a coisa foi tomando o caráter de desenho animado. Começou a se interessar pela animação, as crianças também, daí para as primeiras oficinas de animação, foi um pulo.  

Fez várias Oficinas, destas com as crianças, naquela época, era com "Super-8". "Foi muito bom, para mim um verdadeiro laboratório". Porém Wilson percebeu que todo mundo estava mais interessado em mão de obra para estúdios, aquela coisa de fazer bonequinhos a lá Walter Disney, mas a sua filosofia nunca foi essa.

Sua formação artística foi com Bernardo Caro. "Formação de ter e fazer uma arte pessoal, de traço próprio". Aquela coisa de que "a arte tem que ser sentida, e não tem que ser explicada". O Bernardo foi seu professor na escola pública quando ele tinha 11 anos.

Naquela época os alunos aprendiam arte na escola, a matéria era reprovativa, não tinha esta moleza de aprovação automática. Bernardo Caro foi um Professor muito importante para a formação de Wilson. E foi essa formação que ele trouxe para o "Núcleo".

Já Maurício Squarisi era desenhista, artista gráfico, envolvido com editoras e publicidade, ele confessa, via as mostras que o Wilson organizava no SESC. Isto por volta de 1976... "Eu gostava de animação e queria fazer também...". Foi trabalhar com Wilson Lazaretti.

Wilson Lazaretti e Maurício Squarisi são hoje os responsáveis pelo "Núcleo de Animação", já há mais de trinta anos; bem como pela produção de 190 curtas-metragens animados.  Alguns premiados mais de uma vez.

Esta produção, 190 curtas-metragens, simplesmente, representa 40% da produção brasileira de animação. Porém agora o mais novo desafio do "Núcleo" é a realização de um "longa-metragem".

Em entrevista a Katia Fonseca do Caderno "C", do Jornal "O Correio Popular" de 14 de fevereiro de 2008, eles revelaram o que fazem para conseguir sobreviver e também falam sobre a filosofia de trabalho do "Núcleo". Baseamos-nos nesta entrevista para desenvolver este texto.

Eles, na entrevista, confessam, que na verdade não sabem como se vive de "Cinema de Animação" no Brasil... Talvez porque não vivem... "Sobrevivem...".

Não há um faturamento mensal e regular... Mas as contas são mensais e regulares, e têm que ser pagas regularmente todos os meses.

A fonte de renda mais regular e segura do "Núcleo" são as oficinas que ministram. Ultimamente por causa da valorização da ideia de responsabilidade social e ambiental, estão sendo mais requisitados para realizar oficinas de "cinema de animação".

As oficinas têm outro lado positivo, elas também geram oportunidades e condições de produzirem mais filmes, elas também facilitam o envolvimento de mais pessoas, geralmente crianças e educadores.

Trabalham com temas ambientais e oficinas desde 1984, mas de um tempo para cá virou moda. Com os filmes autorais, eles só conseguem uma grana quando ganham "Prêmios", ou quando são selecionados em "Editais", porém ambas as coisas são raras. Outra saida é se conseguir um patrocinador, o que é mais raro ainda...

Em matéria de premiação, o filme mais premiado é o "Çuikíri", resultado de uma oficina realizada com crianças de uma tribo indígena na Amazônia, em São Gabriel da Cachoeira, em 1991. Este filme ganhou Prêmio até em Nova York. É um filme que conseguiu vários "Prêmios".

"Çuikíri" começou a ser "Premiado" a partir de 1991 e até hoje ganha "Prêmios". Ganhou também um "Anima Mundi". Mas estes "Prêmios", normalmente não são em valores monetários... É quando são... É um valor, digamos, simbólico...

Na verdade ambos reconhecem, Fazem cinema de animação mais como ponto de vista ideológico... Mas já estão nesta lide há mais de 30 anos.

Só entra dinheiro quando encontram pessoas "sensíveis" das empresas do governo e de instituições... Mas é difícil...

A exceção é o SESC, que sempre foi uma instituição parceira... Algumas empresas têm pessoas que se identificam com esse trabalho... A Bosch já foi nossa parceira... 

O que devemos entender por "pessoas sensíveis"? "Sensível" é querer produzir uma coisa não só visando o retorno de marketing, mas se interessando também num retorno cultural e social.

A filosofia de ver desenho animado, do "Núcleo", é diferente. Não é aquela coisa estereotipada de personagem bonitinhos e engraçadinhos, falando... Macaqueando Walter Disney, a quem respeitam muito.  É uma animação mais pessoal.

O "Núcleo" não tem aquela conotação de fazer alguma coisa para vender ou inventar um personagem especifico para criar uma série. O "Núcleo" só entra em projetos que têm a sua filosofia, que é a de educar, ensinar, passar bons comportamentos sociais, enfim... Formar cidadões... Batalhar a formação da cidadania...

O "Núcleo" oferece oportunidade para pessoas que queiram aprender a fazer animação, ensina muito. Porém hoje, trabalha apenas com oficinas, em parceria com empresas. Na verdade, com quem patrocine, com "sensibilidade", ou seja, sem pretender simplesmente fazer marketing, mas sim, prestar serviço social.

Entre estes parceiros, alem do SESC, também têm o Correio Escola, "projeto educacional" da Rede Anhanguera de Comunicação e uma empresa de telefonia, a CTBC - Companhia de Telecomunicações do Brasil Central, que atua em Minas Gerais, Goiás, a Região Norte do Estado de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

No ano passado, 2007, o "Núcleo" fez parceria também com a "Renovias", que apoiou à produção de uma "Série de Filmes" que estão ficando prontos agora, resultado de oficinas que foram feitas com crianças, desenvolvendo um tema ecológico "a importância da água".

As oficinas são feitas sempre com alunos das escolas públicas. Cada oficina gera um filme. Então, a criança aprende animação e realiza um filme. O Núcleo sempre pede que os educadores participem também. Pelo lado da empresa parceira, o filme gerado nas oficinas vai circular muito e assim divulgar a sua "marca".

Tem filme feito em 1991 e que até hoje é exibido. O retorno de marketing para as empresas parceiras é infinito, sendo que o tema, por ser social, estará sempre em evidência para novas gerações de futuros cidadões.

Os dois "heróis" do "Núcleo de Animação", Wilson Lazaretti e Maurício Squarisi, já formaram profissionais de "Cinema de Animação". Quando fizeram o filme "Çuikíri" com crianças indígenas da Amazônia, pensaram que nunca mais iriam ver aquelas crianças, mas em 2007, "surpresa...", um daqueles indiozinhos, agora já adulto, veio a São Paulo e os procurou e ficaram sabendo que eles continuavam fazendo cinema de animação.

Porem a formação de profissionais na área tem um problema muito sério no Brasil, "a continuidade". É muito difícil convencer um patrocinador a dar continuidade a um projeto, mesmo vitorioso.

O "Núcleo" também formou um grupo de jovens em Valinhos, que fez três vezes sempre a mesma oficina, sempre aprendendo a mesma coisa.

O ideal seria que se pudessem dar projetos completos, que avançassem que tivesse uma primeira fase de oficina, depois uma segunda fase para quem já é iniciado, depois uma terceira e assim por diante...

Ou seja... Um Projeto que tivesse início, meio e fim... Assim os aprendizes podiam ir acumulando experiência. Mas é difícil uma empresa ou empresário ter esta visão, o poder Público... Nem pensar...

Eles tiveram oportunidade de fazer um pouco isso com o Projeto CTBC e vem acontecendo, com mais constância, na parceria que têm com o "Correio Escola", com quem já produziram oito filmes, a parceria existe desde 2000.

Alias todos os filmes produzidos nas oficinas, têm o mesmo "status" que o de filmes autorais feitos pelo "Núcleo", Concorrendo assim em Festivais, sendo exibidos em mostra e outras apresentações.

E muitas vezes ganham prêmios... Como foi o caso da "E a velha a Fiar", produzido com o "Correio Escola". A Carla Camuratti, atriz e diretora cinematográfica fez 30 cópias desta "Animação", para exibir na abertura de todas as sessões do festival de Cinema Infantil no ano de 2007, no Brasil inteiro. Ou seja, as oficinas dão um bom retorno, só necessitam de continuidade.

As Oficinas acabaram sendo o "Carro Chefe do Núcleo". Mas os dois amigos afirmam: "Gostamos mais de fazer os filmes autorais, que é quando a gente pode colocar a nossa poesia na estrada...".

Há um lance interessante, que é a curiosidade dos animadores. Eles sempre querem saber como é que funcionam as oficinas do "Núcleo"... Mas não há segredo... É uma coisa muito natural... Não há formulas mágicas... "Os instrutores brincam com as crianças... Brincam de fazer Animação...". E o que é mais importante, elas gostam e fazem, produzem e trabalham direitinho. É espontâneo...

Há uns 10 ou 15 anos, os animadores só queriam fazer desenho animados, só filmes autorais. Mas o "Núcleo" sempre fez oficinas. Desde que o "Núcleo" nasceu faz oficinas. Isto lhes deu um grande conhecimento e experiência pedagógica.  De uns tempos para cá, o trabalho de cinema de animação, a produção de filmes autorais, ficou mais escassa e todos os animadores passaram a fazer oficinas.  Então eles têm grande curiosidade em saber como é que o "Núcleo" trabalha.

Há uma estatística interessante. O "Núcleo de Animação de Campinas" é responsável por 40% da produção brasileira de animação. Hoje o "Núcleo" tem 190 filmes produzidos, entre autorais e de oficinas. Os filmes produzidos pelas oficinas somam cerca de 70% deste total.

Agora, para um futuro próximo, o objetivo do "Núcleo" é um longa metragem. O Projeto existe há sete anos. Começou na USP, mas agora está desvinculado, é o primeiro longa metragem do "Núcleo".

Chamar-se-á "A História Antes de uma História", filme que mostra como se faz um desenho animado. Na verdade é um pouquinho a história do próprio "Núcleo" neste 33 anos de atividade.

O filme conta que para se criar alguma coisa é preciso passar por seis fases.
A primeira fase é a "da inquietação", é o primeiro bloco do filme; a segunda fase é a do "instrumento da inquietação"; a terceira fase é a formação do "banco de idéias", "o conhecimento"; a quarta fase é a "linguagem"; a quinta fase é "a obra propriamente dita"; e por fim a sexta fase a "transparência".

O filme ainda esta na pré-produção e o "Núcleo" acabou de conseguir o primeiro patrocínio. A autoria do filme é de Wilson Lazaretti, Maurício Squarisi faz a produção. A captação de recursos esta a cargo de "3S Produções".

Mauricio Squarisi também tem um projeto autoral, é o filme "A Nega, o Nego e sua Sanfona", que precisa ser finalizado. Mauricio esta há 17 anos fazendo este filme. É um curta metragem, mas a dificuldade é a mesma do longa. O "copião" esta pronto, mas falta colocar o som e não há dinheiro no momento.

Esta é a luta destes dois "bandeirantes" da arte, do cinema de animação. Quando usamos o termo comparativo "bandeirantes", não podemos deixar de lembrar: "aqueles usavam a força"... A força bruta e a força do dinheiro da "Coroa de Portugal" ou dos "Nobres portugueses", que patrocinava tudo e mais um pouco...

No caso presente nossos "bandeirantes usam a inteligência", "o trabalho não remunerado", "o idealismo puro, lírico...", "sem segundas intenções a não ser a de se fazer arte... a arte pelo prazer de fazer arte...".

Patrocínio? Já foi discutido neste texto... Há que se encontrar a pessoa física ou jurídica que tenha dinheiro, ou então, um órgão do governo que pensa no País, no povo, na educação, na cultura, usando simplesmente a "sensibilidade...". É difícil, eu diria impossível... Mas a grande arma deste nosso povo e destes "cine animadores" é a "esperança", e eu mesmo não acreditando nem nela mais... Tenho esperança que eles vão conseguir...

E como dizia um velho e sábio general, o Marechal Rodon: "Basta querer para poder...".

Wilson... Maurício... Vão em frente... Não lhes posso prometer nada... Porém se vocês tiverem que recuar... Eu prometo... Eu escoro até vocês se recomporem de novo para uma nova carga.

No auge da batalha... Se eu for o corneteiro... E vocês pedirem para eu tocar o "toque da retirada...". Eu promete... Vou tocar o "avance cavalaria", já ganhamos uma batalha assim... Porque não duas???!!!...

Fonte Informação: Entrevista a Katia Fonseca do Caderno "C", do Jornal "O Correio Popular" de 14 de fevereiro de 2008. Texto de Dimas Garcia.

Fonte Internet: Em breve