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João Bosco (1987)

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OBRAS

Ele nasceu e viveu numa região pobre, numa humilde cidadezinha. Mas... De habitantes felizes. Até que um dia, o progresso trouxe uma represa, que se encheu e afogou a cidade, fazendo seus filhos artistas correr para terras mais altas.

Mas o menino João, já tinha apreendido com os "mestres" locais, detentores de cultura secular, a se apropriar sabiamente do instinto cultural. João Bosco é um destes raros artistas que não fala... Não teoriza, faz... No princípio um humilde desenhista nato, que do traço rápido com o lápis sobre o papel, pulou para o traço espontâneo do bico de pena e em seguida descobriu que podia "aquarelar" seus papeis... E o fez com maestria.

João do desenho em bico de pena "aquarela do sobre papel", rapidamente, foi para a madeira bruta ou para a madeira industrial e depois foi para a tela; sempre com seu desenho singelo, com suas cores apagadas, com seus trabalhos cheirando o inacabado, que o artista tinha que se desfazer logo deles para não sofrer o dilema do não gostei, vou arrumar. Arrumar, palavra que aterroriza todo e qualquer artista.

Mas realmente as obras de João têm como marca, "o falta alguma coisa", motivo pelo qual normalmente são monocromáticas, parecem raspadas, lixadas, riscadas, apagadas, obras aparentemente inacabadas... Porém para o espectador sério, conhecedor da arte de fazer a arte, irretocáveis... João Bosco é pintor.

O tema do pintor? A vida que flui ao seu redor, pessoas anônimas, animais domésticos, objetos descartados ou usados e usáveis mais antigos ou velhos tudo dominando o espaço da tela com maestria, pois o bom artista começa pôr saber dominar o espaço. É desta fase uma série de pinturas que captam a tristeza, o isolamento, a solidão de uma humilde vida na humilde Redenção da Serra, cidadezinha do Vale do Paraíba, às margens do Rio Piraitinga, cidade e rio encravados na Serra do Quebra Cangalha, Serra esta encravada na Serra do Mar.

João desenhista, João aquarelista, João pintor, João de uma pintura honesta e sincera, João sonhador, João simples e humilde, João Bosco, hoje uma marca, que não será jamais afogada pelas águas de qualquer represa. Mas faltava o João pesquisador, nos últimos anos este extravasou a tela, antes o "matérico" em suas telas que eram colagens de figuras desenhadas ou pintadas, recortadas e aplicadas às telas, deu passagem aos objetos, complementando o trabalho pictórico, ou o trabalho pictórico complementando os objetos.

Com os objetos soltos, João partiu para a confecção de uma espécie de "prateleiras", divididas em nichos de tamanhos diversos, onde em cada nicho põe um objeto, um retrato, uma pintura. Não podemos dizer com certeza que é uma peça tridimensional, uma vez que ela é mostrada afixada numa parede.

Porem elas tem a sua tridimensionalidade, apesar do olhar menos atento só ver o bidimensional. Nas prateleiras de João, as peça estão postas em seus nichos a gosto do olhar do artista, porém nada impede que o espectador crie o seu olhar e recrie uma nova obra de arte.

João Bosco continua em suas pinturas atuais com colagens e em seus objetos postos em nichos, como sarcófagos, a revelar o grito cultural de seus ancestrais, a revelar o grito cultural dos sobreviventes, de um pequeno dilúvio localizado, que um dia afogou sua cidade, suas casas, seus sonhos, seu passado. Assim ele e seus colegas artistas da acanhada Redenção da Serra, como os sobreviventes da Arca de Noé, depois de passado o dilúvio, se espalharam pêlos quatro cantos do Brasil e Campinas teve o privilégio de ter sido escolhida pôr João Bosco.

(Por Dimas Garcia) João Bosco é o nome artístico de João Bosco de Oliveira, natural de Redenção da Serra, Vale do Paraíba, nascido em 05 de fevereiro de 1956. Depois da fuga das águas que inundaram Redenção da Serra, João Bosco chegou a Campinas/SP em 1987.

João Bosco em Campinas fez carreira e fama rápido, apadrinhado por Zé Cordeiro, que o apresentou ao mundo artístico plástico da cidade, com um trabalho cativante, com um ar ingênuo, fez amizades, foi prontamente aceito e aprovado pela "tribo de artistas plásticos" e, conquistou a todos e a tudo. João Bosco hoje tem um currículo invejável, que passa de uma centena de participações em eventos plásticos, são dezenas de Exposições Individuais, Individuais Simultâneas, Coletivas, Salões, Prêmios e, outras dezenas de intervenções no mundo artístico plástico.

João Bosco é hoje em Campinas, na Região Metropolitana, nos Institutos Universitários de Arte, em São Paulo - Capital e, outros rincões deste nosso Brasil, um nome conhecido e respeitado. Mas tem outro face este diamante que é João Bosco: "O Arte Educador" "O Arte Educador" - João Bosco já era dono de um trabalho sério, cortejado e respeitado como um grande artista, quando se propôs a trabalhar com internos e semi-internos do Hospital Dr.

Cândido Ferreira, Distrito de Sousas em Campinas/SP, fazendo um trabalho de "arte educador". Quatorze anos serviu João aos seus agregados do Hospital Cândido Ferreira, mas não servia a eles, mas sim servia a Cultura e pôr quatorze anos serviria mais se a burocracia administrativa o tivesse permitido.

Grandes feitos, grandes lições do "Espaço 8 Atelier", que a glória dos trabalhos de João Bosco e seus pupilos, não sejam minimizados e esquecidas, fazem parte da luta "antimanicomial", nos outros, artistas contemporâneos, tínhamos grande prazer em aprender as lições dos alunos de João. (Por Dimas Garcia) Depoimento do artista: No meu abstrato procura uma atmosfera cálida por meio da fusão das cores.

Trabalho com colagem. Trabalho muito com o figurativo. Nas telas retratos, objetos antigos, resgatados por meio da minha memória afetiva. Em tom azul opaco e ferrugem, resgato bules, máquinas de costura e cabras.

Trazendo de volta à modernidade objetos que já não são mais usados. Eu, o artista, conto como estes objetos foram vistos por mim no passado. Diria... É um trabalho arqueológico, pois quero cavar a memória afetiva... Sigo a linha da arte pobre, uso materiais pouco convencionais, como cola, tinta látex, alvaiade e pigmentos naturais.

O resultado ai esta nos quadros que vão abaixo reproduzidos... (Do artista para o artista) João Bosco por seu amigo e companheiro Fernando Catani: As imagens que João Bosco cria são de uma memória esvaecida, de um tempo perdido. São registros de lembranças em que ínfimos instantes da vida e das pequenas coisas que dela fazem parte nos comovem profundamente.

São fragmentos, pedaços e restos de uma poesia cotidiana que parece penetrar tarde adentro até alcançar nossos sonhos. Surgem de uma reflexão sem palavras, frutos do olhar constante de uma criança que se entrega ao mundo à sua volta e que encontra o sagrado em tudo.

Pregos enferrujados, paredes descoloradas, bules que já viraram vasos há muito tempo, mesas abandonadas que ainda esperam amparar um jantar ruidoso, cadeiras melancólicas e místicas em sua solidão, torneiras esquecidas em jardins no fundo de quintais são as únicas testemunhas da passagem sobrenatural de Procissões das Bandeiras do Divino, da batida dos velhos tambores, das festas santas e das cantorias anônimas que atravessaram as ruelas e as praças das pequenas cidades da Região do Vale do Paraíba e Serra do Mar. João Bosco nos mostra suas obras com a intensidade de quem sente a dor da vida que passa.

E o artista não poderia deixar de mencioná-la, porque é verdadeiro e comprometido em seu fazer artístico. A força de seu trabalho está justamente nesse reconhecimento.

Quando nos provoca a amar todos os mínimos momentos de nossa existência, aprendemos com suas líricas imagens que a poesia da vida está exatamente nesses instantes incógnitos e, então prometemos para sempre viver pela alma nos longos silêncios da saudade. (Por Fernando Catani)

Fonte de informação: Arquivo particular de Dimas Garcia. Depoimento de Fernando Catani. 

Fonte na Internet: www.unicamp.br / www.campinas.sp.gov.br